Sexta-feira, 31.10.14

Até sempre Timor-Leste!

Tinha 25 anos e uma vontade imensa de mudar de vida. Mas o que me esperava em Timor-Leste, onde cheguei em 2012, sem trabalho ou ambição, revelou-se uma oportunidade para ver a vida sem filtros e ainda assim, e sobretudo, para ser imensamente feliz.

 

Timor-Leste foi um murro no estômago em vários sentidos.

 

Habituada ao ritmo lancinante do jornalismo televisivo, onde ser competente é trabalhar muito, no escritório, em casa, à noite, pela madrugada e ao fim-de-semana, tive que reaprender uma série de coisas como a solidariedade e o trabalho de equipa. Timor-Leste repôs no meu espírito valores que o meu país perdeu há muito: que é preciso dar oportunidades aos jovens e respeitar profundamente os mais velhos; que é possível viver sem o receio constante de perder o emprego e a casa e a estabilidade; e, finalmente, que a liderança, a verdadeira liderança, nasce do respeito mútuo.

 

Em três anos compreendi que trabalhar em desenvolvimento é ter capacidade, e abertura, para aprender coisas novas todos os dias, reinventando-nos se necessário. Aprender a língua local, para falar ao coração das pessoas, aprender a história e cultura do país, factor essencial para trabalhar e viver na condição de estrangeiro, e aprender a ter noção de que estamos de passagem num país que estando em desenvolvimento é, também, uma nação pós-conflito e por isso com tensões sociais e feridas por sarar.

 

Aprendi, acima de tudo, que é preciso ter tempo e dar tempo aos outros e a nós próprios. Tempo para viver, para ver o nascer e o pôr-do-sol, para falar com estranhos e ler livros, para subir montanhas e mergulhar em alto mar, para contar histórias e, acima de tudo, vivê-las.

 

Durante um ano, o primeiro, andei a pé e de tákxi mas sobretudo a pé. De vestidos coloridos e chinelos atravessei as ruas de Díli como quem atravessa os corredores de uma casa.

 

- Ba ne’ebe (onde vais?)

- Malae’e! Diak ka lae? (estrangeira, como estás?)

- Mister, mister!

- Mijis, good after!

 

Nesta casa, metade de ilha, gente inteira, voltei a ser a Tati, como em criança. E fui irmã e prima e natural de Los Palos. Fui, portanto, família e ganhei outras famílias, de todas as cores, de todo o mundo. Neste contexto local e internacional ganhei mundo e venci-me. Queria fazer mergulho, aprendi a nadar. Não podia reciclar, comprei roupa na rua, em segunda mão, feliz e contente. Não tinha televisão e li, li muito. Tive saudades de casa e aprendi a cozinhar a sério. Fui tão feliz sozinha que percebi o que é amar a outro, verdadeiramente.

 

Dizer que Timor e os timorenses me desarmaram completamente, a tal ponto que tenho a sensação de ter sido reinventada. Para melhor, quero acreditar. Com os pés mais na terra, com mais substância, mais pessoa, mais gente, mais angolana e menos portuguesa, mais eu.

 

Este é, como já deu para perceber, o último post do Reporter Timor. Um blogue criado para partilhar a minha experiência em Timor-Leste, a 16 mil km de casa e, ainda assim, e por estranho que pareça, em casa. Uma página que se encerra hoje porque chegou o tempo de partir para novos desafios. E porque só de coração cheio, profundamente agradecida e com um sentimento de amizade por este povo, valerá a pena começar do zero outra vez.

 

Este blogue foi a reportagem (possível) do mundo à minha volta. A minha volta ao mundo (re)começa agora.

 

Obrigada barak Timor-Leste! E até sempre!

 

Fim.

 

Feto Foun

Ou"nora timorense".

 

Foi assim que hoje me fizeram uma pequena homeagem. Dizem que sou família e a verdade é que me senti imensamente em casa deste lado do mundo.

 

Reporter Timor às 01:50 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Quinta-feira, 30.10.14

Asu fantástiku!

 

Este não vai para a panela :)

Reporter Timor às 02:36 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

Testando limites

 

Reporter Timor às 02:21 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Quarta-feira, 29.10.14

Uma Lulik

Muito provavelmente a mais referida expressão em tétum nestes quase dois anos de blogue.

 

Só não estive no Suai, Oecusse e Bobonaro. A minha preferida é a de Los Palos, afinal, foi lá que um dia vi o nascer do sol. Uma experiência que deu verdadeiro sentido a esta terra onde, como diz o poeta, "em nascendo, o sol vê primeiro".

 

 

Em Tasi Tolu, Díli.

 

Reporter Timor às 06:20 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

Serpente marinha

No ano passado escrevi um post sobre o safari dos pequeninos referindo-me às minhas mazelas na sequência de picadas de formigas e aranhas. Piadas de quem vive na ilha do crocodilo mas que nunca chegou nem perto do perigo. Pelo menos, eu achava que não.

 

Até que vi na televisão que a cobra da foto é altamente venenosa. A mesma que eu vi em Maubara há coisa de um ano e, divertida, fotografei várias vezes. Não satisfeita com as fotos, no fim mergulhei naquela mesma praia.

 

Diz que foi um dia de sorte.

 

 

Reporter Timor às 06:11 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

O casamento

Quando trabalhava para a RTP internacional fiz um plano de reportagens com o objectivo de partilhar a cultura timorense no mundo, dar-lhe a tão merecida visibilidade internacional e que, na minha opinião, tarda em chegar. Uma dessas reportagens que ficaram na gaveta era conhecer a tradição do casamento. O Namoro, a prenda da noiva (ou dote, que envolve muitas negociações), o noivado e, finalmente, o casório, a boda e o felizes para sempre.

 

Acabei por viver esta experiência como amiga, por vezes confidente.

 

Na foto, uma história de amor que une duas famílias numa só uma lulik. Seguindo a tradição timorense, entraram na igreja de mão dada depois das meninas das alianças e os respectivos pais. Sentaram-se lá à frente com o público para celebrar a missa e só aquando da celebração do matrimónio foi possível vê-los no meio, lado a lado, a concretizar um sonho.

 

 

Lá fora um sol brilhante, como se vê na foto.

 

Felicidades aos noivos!

Reporter Timor às 05:44 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Segunda-feira, 27.10.14

Luta de Galos: a experiência

Três anos em Timor e nada de ver crocodilos. Os meus colegas dizem que o galo não é lulik (sagrado) mas tenho cá para mim que deve estar lá perto. Disseram-me que lhes dão banho, carne para comer e vejo-os com frequência ao colo dos donos entre várias e largas festas pelo meio. No fundo, representa (também) a cultura timorense tendo nas lutas de galo o expoente máximo desta relação homem galinácio.

 

Isto para dizer que no Sábado fui assistir a uma luta de galos. Cheguei, timidamente, pus o meu tétum em acção para perceber se os malae'e podiam assistir, não tirei fotos (não queria chatear ninguém) e devo dizer que foi uma experiência muito interessante. Há uma casa, telhado palha escura qual uma lulik (casa sagrada), uma arena ladeada de vidro lá no alto, uma portinhola para os guerreiros.

 

O centro de tudo: as apostas. Os semblantes sérios e as vozes em uníssimo: aposta, aposta! Os galos que começam a ser atiçados já no colo dos donos, as facas amarradas às patas, o pêlo que se lhes eriça quando enfurecidos e as apostas terminam quando o debate inicia. Vi duas lutas, ambas muito breves e fatais para os vencidos.

 

Não posso dizer que gostei, afinal sou uma ribatejana com aversão a touradas, mas não podia deixar Timor sem viver esta experiência, que valeu a pena para compreender melhor as gaiolas apinhadas por toda a cidade, os galos por toda a parte, os cocorococó às 3, 4 e 5 da manhã.

Reporter Timor às 02:40 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Terça-feira, 21.10.14

Da série feios, porcos e maus

FPM - Estive na Pousada de Baucau e gostei muito, pena é que não tem piscina.

Eu - Tem sim e a água vem da montanha, cristalina e fresca.

FPM - Ah! mas a essa vão também os nativos.

 

(devo ter feito um esgar do tanto que mordi a língua para não responder torto)

 

FPM - Em frente à sua casa os nativos também se penduram nas grades?

Eu - Não faço a mínima ideia do que é que está a falar.

 

Só para esclarecer, este "senhor" considera nativo todo o cidadão Timorense. Este "senhor" é médico e vai abrir uma clínica só para malae'e porque, diz, Timor-Leste (leia-se, os nativos) precisa de cuidados de saúde. Tenho pra' mim que a pessoa tem que comer muito pão Maubere para lá chegar.

 

Reporter Timor às 04:29 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Sexta-feira, 17.10.14

Timor-Leste e a CPLP

É interessante ver como Timor-Leste se aproxima muito mais dos países africanos, e mesmo do Brasil, do que de Portugal. Como portuguesa, e trabalhando em Timor e para Timor, foi com muito orgulho que ouvi recentemente rasgados elogios à (minha) ilha.

 

Que querem voltar.

Que foram muito bem recebidos.

Que mesmo quem não fala português mas tétum faz um esforço enorme para comunicar.

Que o país e o clima se parecem com os seus países de origem.

 

Timor-Leste deve estar, e esta é a minha opinião pessoal, no top 5 dos melhores anfitriões.

 

Orgulho!



Reporter Timor às 08:41 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

Os miúdos da praia

Quem conhece Timor sabe que, à excepção da areia branca, as praias estão quase sempre vazias. E portanto mesmo em Díli é possível estar-se só no paraíso. Ora esse descanso acabou desde há uns domingos para cá na Cemitery Beach.

 

Uma grupeta de miúdos bem castiços adoptou-nos. Assim que nos vêem correm na nossa direcção, sentam-se à nossa volta (são talvez uns 12), iniciam conversas de circunstância e de pormenor, fazem piruetas, cantam para nós. E que vozes...

 

A relação de confiança chegou a tal ponto que, antes de irem embora, não raras vezes soltam um "então até para a semana".

 

Educados, alegres, ruidosos, miúdos felizes como se quer.

 

Domingo lá estaremos.

 

Bom fim-de-semana!

 

 

 

Reporter Timor às 08:20 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Sexta-feira, 29.08.14

Feto Forte Nasaun Forte

Ou "Mulher forte, País forte".

 

A frase mais dita pelas minhas (e meus!) colegas.

 

Tenho as fichas todas apostadas no futuro deste país.

 

Reporter Timor às 06:27 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

The Look of Silence

É um filme sobre o genocídio de 1965 na Indonésia, durante a ditadura militar, contra militantes comunistas. A mesma acusacao, a de ser comunista, que caiu sobre Timor-Leste e que justificou, aos olhos de países como a Austrália e EUA, a invasao da Indonésia no país.

 

 

Interessante reparar que na ficha técnica do filme a equipa desfila como anónimo, anónimo, anónimo,.... Segundo o realizador, Joshua Oppenheimer, as pessoas temem pela sua vida. Ainda hoje.

Reporter Timor às 03:58 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Terça-feira, 26.08.14

Bakso, warung e outros sabores do mundo

Um saltinho delicioso a Tailandia!
Reporter Timor às 02:31 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Quinta-feira, 21.08.14

Os Herois do povo

Reporter Timor às 08:53 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Terça-feira, 05.08.14

Timoroan #10

 

"Quando o meu filho começou a trabalhar para a ONU levou-me de presente a Portugal, França e a Roma para ver o Papa. Ele dizia-me se a mãe quiser descansar pode ficar no hotel eu respondia de volta filho, se era para descansar tinhas-me deixado lá em Timor.

 

Olhe, fartei-me de andar, de passear e à noite tomava um banho de água quente, aquilo parecia que me massajava os músculos, estou convencida de que faz muito bem à saúde.

 

Queria reencontrar o meu pai e conhecer a minha madrasta e as minhas irmãs, tenho duas irmãs!, mas não foi possível Lisboa é muito grande. A última vez que tive contacto com o meu pai foi em 2006. O meu filho, quando o foi procurar, descobriu que ele tinha morrido mas não me contou para eu não ficar triste. Disse-lhe não, filho, não estou zangada contigo."

 

Reporter Timor às 01:50 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

Silly season

 

Não sei se é por ser Agosto mas os supermercados portugueses estão depauperados. Não há bacalhau, presunto ou entrecosto. Não há leite, iogurtes ou queijos.

 

Foi, por isso, com espanto que ontem encontrei isto no supermercado local que, julgo, pertence a indonésios. Todos os produtos são portugueses, presume-se portanto que de qualidade, e os preços muito aceitáveis para Timor.

 

Foi uma alegria lá em casa!

Reporter Timor às 01:49 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Segunda-feira, 04.08.14

O céu é o limite

 

Estou muito apostada em fotografar uma mota com três marmanjos ou dois marmanjos e três crianças. Isso ou este blogue nunca será, verdadeiramente, sobre Timor. O problema é se a mota se espeta no meu carro e quase me mata do coração outra vez.

Reporter Timor às 06:46 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

Barbatanas de tubarão

Pela módica quantia de 109 dolares. Num supermercado perto de mim.

 

Reporter Timor às 03:59 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

Preço Malae'e

Ou, como se diz na minha terra, eles bem tentam atirar o barro à parede.

 

- Quanto é que custam as bananas?

- 4 dólares.

- Ahahaha. Adeus.

- Não, espere. Quanto dá?

- Adeus, já disse!

- Pronto, 25 centavos.

 

 

- É para lavar o carro. Quanto custa?

- (em indonésio para ver se eu caio): 15 dólares.

- O quê?! Mas eu pago sempre 5 dólares!!

- (nervoso): 5 dólares, 5 dólares!

 

Mas o que eles gostam mesmo, mesmo é das apostas.

 

- Olá! Viste o jogo ontem?

- Vi, vi. Hoje é a Alemanha. 10 dólares!

- O quê?

- Ok, ok, 5 dólares!

- Ahahah, eu não entro em apostas!

 

Reporter Timor às 02:33 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

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