Terça-feira, 29.01.13

Lost

“Perdida” numa ilha sem TV e (até há bem pouco tempo) cinema a pessoa aqui virou-se para livros e música. Na praia, em viagens ou no alpendre aqui de casa a coisa correu bastante bem até que…pois, os livros acabaram.

 

Problema resolvido, sai um Saramago em castelhano. “La balsa de piedra” ou “A jangada de pedra” é uma obra que parte de um cenário utópico: a península ibérica separa-se da Europa, na sequência de uma ruptura na zona dos pirinéis e parte à deriva pelo oceano atlântico. Uma metáfora sobre uma Europa mais ética e o encontro cultural com o continente americano.

 

Mas o mais importante disto tudo, é que em castelhano ou em português Saramago não desilude. O estilo literário do nobel está inteiro ali, poupado nos pontos finais, nas quebras, nas exclamações e reticências por um lado, extravagante e simples nas descrições por outro deixa-nos ler como se estivéssemos a pensar. ou a ver.

 

Gosto de Saramago e da sua tradutora fiel, Pílar del Río. Quando a conheci em 2010, numa entrevista de mais de 1h, no Palácio/Biblioteca Galveias, emocionei-me. É que nem ele poderia ter escrito uma história de amor tão bonita. ou desenhar uma mulher - ele que sempre atribuiu o papel principal às personagens femininas - tão paixonada pela vida e, por isso, apaixonante.

 

Deixo-vos um excerto do livro que - atrevo-me a dizê-lo? - gostava de ter sido eu a escrever. O que será da (minha) Europa quando eu voltar?

 

“Es probable que cuando llegue ya no vea Europa, Si no la veo es porque nunca há existido, en definitiva, tiene entera razón Roque Lozano, que para las cosas existan son necessárias dos condiciones, que el hombre las vea y que les ponga un nombre”.

Segunda-feira, 28.01.13

A pergunta

Perguntava-me noutro dia a minha irmã: “mas tu não preferes trabalhar com portugueses?”.

Disse-lhe que não, que se tive a sorte de estar deste lado do mundo havia que aproveitar para beber de outras culturas. E, se possível, fazer diferente, fazer melhor (fazer! o que eu gosto deste verbo!). E aprender, muito, sempre.

 

Comecemos pelos timorenses para quem o futuro está todo por desenhar. Uma nação nova, um povo persistente e patriota. Só isto já me chegava para regressar a Portugal com um espírito novo. mas numa ilha com tanta (mas tanta, senhores!) nacionalidade, há muito mais para abraçar.

 

Senão vejamos, os australianos são gente muito dada à objectividade, o que há a dizer diz-se no  momento exacto e o assunto fica arrumado. gosto do sentido prático dos americanos, da pontualidade dos anglo-saxónicos em geral e do sentido crítico dos franceses, da comida italiana e da alegria dos espanhóis. Sim porque “ir de fiesta” é coisa que “me gusta un montón”. e depois, claro, os tantos portugueses que andam pelo mundo e trazem experiências e histórias que vale a pena ouvir. é muito agradável aquela sensação - de que os portugueses são uns poliglotas incomparáveis e com uma cultura geral muito acima da média. É certo que me dói um pouco perceber que nem toda a gente nos sabe encontrar no mapa, mas para isso é que cá estamos: para os orientar e mostrar o que valemos, na pior das hipóteses, à custa de queijo e vinho.

 

E de repente olhamos em volta e temos uma família do mais internacional que pode haver. Nesta metade de ilha, nação nova e cheia de vigor, nós, os “mala'e[i], escolhemos estar longe de casa para sermos livres mas depressa criamos raízes. E formam-se laços. E crescem amizades, e até amores!, para toda a vida.

 

Já vos disse que há quem diga que esta é a ilha do amor?

 

 



[i] Palavra em tétum para se referir ao estrangeiro, aquele que atravessa o mar para chegar à ilha de Timor.

Reporter Timor às 09:36 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Domingo, 27.01.13

Taxi Driver






Tenho grande esperança no turimo em Timor-Leste. tão perto de Bali ou das Gili, Timor tem potencial para ser um destino turístico muito mais interessante. eu já estive nestes destinos de sonho e, no entanto, posso dizer que nada se compara à ilha de Jaco ou à montanha do Matebien ou às termas naturais em Maliana. tudo isto em Timor.


Mas este post foi criado para vos falar nos taxistas de Díli. adeptos de futebol (perdão, do Cristiano Ronaldo assim é que é), com música sempre em alta e a conduzir devagar e devagarinho...são uns castiços. qualquer turista que se preve tem que apanhar um taxi em Dili. no meu caso, querem sempre saber se sou portuguesa e apostam sempre na carreira de professora. felizmente as palavras "jornalista" e "RTP" são familiares e conseguimos entender-nos. e depois a conversa desenrola-se viagem fora. antes em português agora, e cada vez mais, em tétum.


Ah! e no que toca a Portugal e aos portugueses...apetece-me dizer que este senhor é do mais nacionalista que já vi. por fora o carro até pode ser amarelo como em Nova Iorque, mas por dentro é bem português.


Obrigado Barak, maun!
Reporter Timor às 09:45 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

Obrigada, TC!

 

Durante os 5 anos que trabalhei na RTP2 foram várias as reportagens que fiz sobre museus e cultura em geral.

Destaque para "Uma Aventura no Museu", uma reportagem com Ana Maria Magalhães. A escritora aceitou o meu desafio e fez par com uma criança de 5 anos num passeio pela oferta cultural em Lisboa. era um dia de chuva e gravámos a manhã inteira. primeiro no Museu Nacional de Arte Antiga, depois no Museu de Arqueologia e ainda na Fundação Calouste Gulbenkian. foi, dentro do género, a peça que mais me orgulhei de por no ar. pelo serviço público que prestámos todos naquele dia, pelo trabalho que deu a toda a equipa, em especial ao J. e à M., pelo resultado incrível! 

 

Mas o meu contributo para com um projecto cultural, pensava eu, não passaria disto mesmo: divulgá-lo. Foi, por isso, com espanto, que aceitei o desafio da T. para trabalhar no Arquivo & Museu da Resistência Timorense. um projecto apaixonante...desde o primeiro minuto.

 

Transcrevo abaixo um texto com data de 28 de Março. um relato entusiasta de quem, naquela altura, sequer imaginava vir a apaixonar-se por Timor e pela sua história.

 

Obrigada T., por teres acreditado em mim num tempo em que não eu era mais do que uma estranha. e por teres mudado a minha vida de uma forma que (ainda) nenhuma de nós sabe o quanto.

 

 

***

 

Museu & Arquivo da Resistência Timorense, Díli

 

Esta manhã cheguei ao Hotel Timor decidida a terminar a minha carta de apresentação. já passaram duas semanas e tudo o que quero é regressar ao trabalho, continuo por isso a bater de porta em porta, deterinada a ficar por cá.

Encontrei a T., que estava a tomar pequeno-almoço, e me perguntou se não queria passar pelo museu - "há tanto para fazer, se não estiveres ocupada...". E foi de sorriso nos lábios que aceitei o convite.

 

O museu é um edifício dos anos 60, construído por um arquitecto português para ser o Arquivo Nacional.

Os portugueses decidiram depois usá-lo como tribunal e o mesmo aconteceu durante a ocupação indonésia. Em 99 resistiu a um incêndio que destruiu parte da cidade. Há 7 anos decidiram transformá-lo num museu que será o primeiro do país e o único do género em países em desenvolvimento. Mas Timor não quer ser um exemplo quer sim, e com imensa garra, contar a sua história e mostrar às novas gerações que "não há países livres sem memória".

 

O Governo timorense é, por isso, o principal financiador deste projecto.

A inauguração está agendada para 18 de maio mas as obras estão longe terminar.

 

Num país independente há apenas 10 anos, o arquivo histórico sobre o período da resistência é bastante rico. Fotografias, cartas, documentos vários e objectos foram guardados durante anos por guerrilheiros e populações.

Uma das histórias mais incríveis que a T me contou foi quando a sobrevivência da guerrilha estava em causa, por falta de homens e alimento. Decidiram depois ir para as montanhas, pedir ao povo que pegasse em armas e que pousasse para uma máquina fotográfica. Enviaram depois, em massa, as fotos para todo mundo com a mensagem: "somos muitos mais do que vocês pensam". uma guerrilha estratega, organizada e com o apoio do povo.

 

Ao todo o museu terá 21 colaboradores, todos timorenses, sendo que há lugar para investigadores que darão continuidade ao estudo da história do país. Eu não sabia que em Timor não havia a disciplina de história. Depois de séculos de estórias com a visão do colonialista português e depois do invasor indonésio, Timor escreve agora a sua própria história.

 

Uma hora e muitos dedos de conversa depois, a T. fez-me uma proposta irrecusável: "queres ser consultora de comunicação do museu?".

 

E ao dia 28 de Março tudo se começa a compor por terras do levante.

 

 

*Nota: Timor significa "levante".

 

Reporter Timor às 08:12 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

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