Segunda-feira, 25.11.13

Voluntária depois dos 60

 

O pin, ao peito, a dizer "a minha arte é ser eu" foi a primeira coisa que me chamou à atenção. Nem foi por estar posicionado no lado do coração mas por ser exibido na blusa de uma mulher de cabelos brancos que levava nos pés umas sapatilhas.

 

Íamos a caminho de Ataúro - essa ilha tantas vezes revisitada - viagem durante a qual dormi até me adormecerem as mãos. Mas aquele pin voltou a colar-se-me aos olhos quando começou a nova aventura, já em terra. Foi aí que perguntei "é portuguesa?". 

 

Leondina, portuguesa sim, de trás-os-montes, completou 61 anos há um mês em Timor-Leste. Foi professora de português, reformou-se, mudou-se para as Caldas da Raínha para acompanhar as filhas e os netos. Mas o espírito desassossegou-se-lhe, impacientou-se-lhe.

 

"Se calhar já não vou a Moçambique".

Quis trocar o título de reformada pelo de voluntária que, diga-se, lhe assenta bem melhor. Sonhou começar por Moçambique,  mais perto de casa, mas a oportunidade estava em Timor-Leste. Pediu um ano - ou terão sido dois? ah isto de ser repórter em lazer é uma chatice - para pensar, para se preparar mentalmente para a distância, as saudades, e esperar pelo tempo de os netos irem para a creche. Depois impôs as condições: vou para um máximo e um mínimo de três meses. Partiu. E chegou.

 

Disse-me "nos primeiros tempos não conseguia sair de casa" e revi-me nesse estado assoberbado em que tudo nos parece afectar, que nos pesa porque é impossível ser-se ou estar-se indiferente. Trabalhar com jovens, ensinar-lhes uma língua estrangeira e estranhar - tudo, todos - para depois sentir saudades antes mesmo de partir. Diz que se emociona diariamente, que já não vai à internet para falar com a família e é nestas últimas semanas que está a correr o país movida por uma paixão que não sossega.

 

Quis resolver as saudades com a família, as do futuro, explicou. Porque um dia há-de morrer e irão sentir-lhe a falta "mais vale irem-se habituando" enquanto se ausenta por curtos períodos. Um pensamento, para mim, difícil de compreender mas que respeitei e respeito apesar de me ter saído um "oh! não pode pensar assim!".

 

Um voluntário é, por definição, uma pessoa que vem para servir o outro, embuído num espírito altruísta. Mas o que vejo nestes voluntários, aquilo de que falam, com espanto, é do saldo positivo, dos ganhos inesperados, desse sentimento que diz "não era bem disto que eu estava à espera, agora fica-se-me aqui o coração e eu que queria tanto ir ter com a família preferia, ao invés, que viesse ela juntar-se a mim".

 

Diz a Leondina que volta a Timor, "oh se volto!", a questão não deixa dúvidas.

Reporter Timor às 02:06 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Quarta-feira, 20.11.13

Adenda ao post anterior

 

Não sei como - às vezes dá-me o alzheimer - esqueci-me de referir o quão úteis foram os meus conhecimentos de indonésio durante a viagem a Rote - cof cof cof -. Desde comprar bilhetes, apanhar táxi (negociar preços não é comigo, mas com o R. um perito nesta matéria) reservar quartos, encomendar o bolo...ui! maravilha.

 

É que isto não é Bali, senhores!, e ele há gente muito antiga nesta ilha perdida.

 

Um grande achado, é o que vos digo!

 

 

Reporter Timor às 08:14 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

Rote, take II

 

Rote é um daqueles destinos onde, invariavelmente, pensamos "aqui vou ser feliz" tal é o deslumbre com a paisagem logo à chegada ao cais. É azul e verde e o sol parece conservar ali todos os seus raios numa luz branca, incadescente, que nos cega. Na praia, a água é vibrante e convidativa, a área envolvente remete-nos para a sensação de um oculto virgem e o silêncio é paz e sossego. Diz quem sabe que a ilha não mudou muito desde há 20 anos. Uma cabana aqui, outra li e pouco mais.

 

Em Abril escrevi aqui sobre a aventura de quatro portugueses, eu incluída, à descoberta desta ilha sita na outra metade de ilha que, sendo Timor, pertence à Indonésia. São 12h de caminho, por terra, de Díli a Kupang e mais 2h de barco, coisa menos coisa. E - imagine-se - vale a pena o esforço, as horas passadas em estradas de pó num autocarro sem janelas, ar condicionado ou bancos suficientes para todos os passageiros. A verdade é que se fosse fácil lá chegar, estava lá o mundo inteiro e no lugar desta ilha com dois ou três surfistas teríamos uma caixa de sapatos. Assim sendo, a ilha apresenta-se-me enorme!

 

Foi por isso que voltei. Quer dizer, eu voltei e ele foi para a estreia.

O aniversário do R. foi o pretexto perfeito para rumar ao paraíso uma vez mais. E ser feliz - não é que nos possamos queixar - num cenário diferente. "Same, same but different". Os indonésios é que sabem, pá!

 

 

  

  

 

 

 

 

 

 

 

Em dia de aniversário acorda-se às 7h da manhã...para isto.

Vidas difíceis, como se pode ver.

 

 

 

O bolo de aniversário comprado numa pastelaria... - como dizer? - caseira.

Uma delícia! Terima kasih, ibu!

 

 

Reporter Timor às 04:45 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Terça-feira, 19.11.13

Ramelau

Com 2963 metros o Monte Ramelau foi em tempos a montanha mais alta de Portugal. Hoje é o ponto mais alto de Timor-Leste e não fica nada mal servido, sendo um local de culto e destino de passagem obrigatória para os mais aventureiros que passam pela ilha.

 

Dito isto, eu que sou pessoa de andar por aí a subir e a descer montes (a primeira aventura foi no Matebien, a segunda montanha mais alta de Timor que me custou 9 duras horas às pernas) posso dizer que foi mais uma missão cumprida.

 

Sorrisos no sopé da montanha, umas horas antes da madrugada alpinista.

Em Hatu Builico, que significa pedra solta.

 

 

 

Adeus, sol! Vemo-nos amanhã lá em cima.

 

 

O tempo passou por aqui.

 

 

 

Sair da pousada às 3h da manhã para isto.

Valeu!

 

 

O Monte Ramelau também é conhecido como Monte Tatamailau que no dialeto Mambai significa "avô de todos". O povo acredita que quando alguém da região morre o seu espírito vai para o alto do Tatamailau. Segundo as minhas pesquisas o nome "Ramelau" foi colocado pela Indonésia durante o tempo da ocupação.

 

 

 

 

 Estava frio!

 

 

Reporter Timor às 05:30 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

Chegou a chuva

 

Declaro oficialmente aberta a época das chuvas.

E das enchentes e inundações e do rio que volta a correr debaixo da ponte de Comoro que atravesso todas as manhãs e que é a 25 de abril em ponto pequeno.

 

Na verdade, a chuva chegou durante o fim-de-semana. Veio convicta e ficou. Deixei-me embalar por ela domingo à tarde, numa sesta da qual já não tinha memória, o que não pode suceder durante a semana. É por isso que me levanto da cama nadinha preparada para um banho que é de chuva e água quente porque aqui nos trópicos é assim: duches ao ar livre com ramos de bambu, dependurados do céu pela chuva que pesa, a servir-nos de tecto.

 

Aqui não chove amiúde, mas a sério, pra' valer. Porque vale a pena viver a sério.

 

Reporter Timor às 01:54 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos
Quarta-feira, 13.11.13

"Maromak!"

Passo a vida nisto, a tomar notas de palavras e expressões em tétum que me possam ser úteis no dia-a-dia. De uma dúvida nascem muitas outras e o meu caderno fica com listas, aparentemente desconexas, como esta:

 

nain = dono/pessoa

nai = Deus

nai maromak = senhor deus

nain iha = casa assombrada (literamente = o dono está)

 

E tudo isto começou com a dúvida (estúpida, ao fim de...puxa, vai pra' dois anos!) "mas afinal o que quer dizer maromak?". Pensava eu que era qualquer coisa como "que sorte a minha, mãe do céu!". Não, significa apenas "Deus". Sem o dramatismo de um "oh", um "ai" que seja! há palavras que dizem tudo e mais um par de botas. É o caso.

 

Reporter Timor às 08:28 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

Primeira Página #4

Xanana Gusmão deixa cargo de primeiro-ministro de Timor-Leste até 2015

O primeiro-ministro de Timor-Leste, Xanana Gusmão, afirmou hoje à agência Lusa que vai deixar o cargo ocupa até 2015 para passar as competências para a nova geração.



 

"Já é uma decisão. Vou sair até 2015. Para passar, transferir as competências e a capacidade de pensar à nova geração", afirmou à Lusa Xanana Gusmão, que ocupa o cargo de chefe de governo do país desde agosto de 2007.

 

Xanana Gusmão voltou a assumir o cargo de chefe do Governo em agosto de 2012, após ter ganho as eleições legislativas.

 

"Agora é tempo para estarmos de fora, não a controlar e a interferirmos, mas a apoiarmos", disse.

 

Segundo Xanana Gusmão, há uma nova geração que quer assumir responsabilidade e há outros que precisam de ter responsabilidade para terem confiança e tomarem decisões.

 

"Eu já dei tudo o que pude dar. Vamos ajudar mais em termos de consolidar a visão sobre o futuro. Não vamos imiscuir-nos nos trabalhos do dia-a-dia, para eles sentirem a responsabilidade e que são responsáveis pelos seus atos", salientou.

 

Para o futuro, Xanana Gusmão afirmou que não vai estar a "dormir" e que juntamente com o secretário-geral da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin), Mari Alkatiri, vão ajudar na captação de investimentos para o país.

 

@Lusa

Reporter Timor às 05:02 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos

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