O Embaixador

Eu, que gosto de pessoas, e de histórias, vivo numa terra farta, entre outras coisas, em heróis anónimos. Há um ano a viver deste lado do mundo (sim, UM ANO sem ir a casa) conheci gente extraordinária, testemunhos vivos da história do país.

Uma das primeiras pessoas que conheci quando cheguei, e a primeira com quem tive uma conversa longa e impressionante, foi o Sr. S.. Na verdade chamo-lhe Kolega porque em tempos foi jornalista. Sediado em Londres, trabalhou para a BBC e para Reuters, teve uma vida que muitos, como eu, aliás, invejariam. Mas este Kolega deixou essa vida extraordinária para trás no dia em que Timor-Leste se tornou independente.

Assim, de um dia para o outro, uma decisão tomada com base num sentimento puramente altruísta: “a minha pátria precisa de mim”.

Ita Nia Rai, que em tétum significa “esta é a minha terra” foi a razão pela qual o Sr. S. regressou a Timor e recomeçou tudo do zero depois de ter estado, pelo menos a meu ver, no topo de uma carreia muito promissora.

Construiu por isso tudo de novo, sem olhar para trás, uma carreira nova, uma família. Por Timor e pelos timorenses. E esta história poderia terminar aqui e seria o bastante para acreditar que o Sr. S. é de facto boa gente.

Mas há mais. Este homem tem um projecto pessoal do qual não faz publicidade alguma mas que acredito que um dia lhe valerá um reconhecimento público genuíno. Melhor do que ninguém, ele sabe o que é ter a oportunidade de viajar, ganhar mundo, e depois regressar para o seu país com matéria-prima essencial para o seu desenvolvimento e progresso.

Este projecto pessoal consiste em enviar jovens timorenses para Inglaterra. Viagem paga, alojamento garantido no apartamento que comprou em Londres e o compromisso de regressar a Timor, ajudar a família, os vizinhos, o país. O Sr. S. acredita que cada timorense é um embaixador do seu país e que todos juntos podem, e devem, participar na sua construção.

Reencontrei-o esta semana. Como verdadeiros Kolegas, falámos de projectos pessoais e profissionais que na vida do Sr. S. são uma e a mesma coisa. Vive para Timor e com a nação a pulsar-lhe em cada veia.

Dizia-me ele: “sempre que falava do meu país as pessoas ficavam a olhar para mim, perdidas. Agora ofereço-lhes o meu business card, que no verso mandei imprimir um mapa de Timor-Leste”.
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