O Balinense

 

Quem anda pelo mundo sabe que é quase impossível não desenvolver uma relação estranha com taxistas. É que não basta indicar o destino e controlar o taxímetro (quando o há) ou acertar o preço antes de entrar. Uns gostam de conversar outros nem tanto, há-os honestos, desonestos e os assim-assim. Os que detestam turistas e os que nos adoram. Os que sabem onde fica Portugal e os que só lá vão pelo Cristiano Ronaldo.

 

Tudo certo desde que cheguemos ao destino, umas vezes em silêncio outras com conversas absolutamente geniais, dignas de uma reportagem a sério.

 

Este balinense ficou-me aqui a palpitar. Primeiro zangou-se. Queria parar para ir à casa-de-banho e eu achei que me ia levar para um beco qualquer. Disse-me "desculpe mas não peço autorização para mijar" e saiu.

 

Começámos mal mas depois a conversa fluiu. E fizémos as pazes com as nossas histórias. Ou as dele.

 

Nasceu em Bali e de lá nunca saiu. Quando perguntei qual era a cidade que mais gostava na Indonésia respondeu "sabe, eu não tenho tanta sorte como a senhora, não conheço mais do que isto que vê, mas sou taxista e assim posso viajar todos os dias".

 

Depois contou que nasceu numa aldeia típica balinense e que o seu maior medo é que o turismo a engula e destrua a agricultura e os maravilhosos campos de arroz. Não gosta de turistas nem da forma como Bali se moldou para os receber.

 

Disse-me: "my age is getting older", que é uma maneira engraçada de dizer "não estou a caminhar para novo" mas fingir que é só a idade e não ele para de seguida partilhar o sonho de um dia poder viver noutro lugar.

 

Sugeri-lhe Timor e perguntou "porquê". Respondi que uma das coisas mais importantes dos lugares são as pessoas e que ele ia gostar dos timorenses. Sorriu-me e repetiu "as coisas mais importantes dos lugares são as pessoas".

 

No fim pediu desculpa por "qualquer coisinha", tradução livre, claro está.

Não cheguei a perguntar-lhe o nome.

 

Reporter Timor às 03:23 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos