Mana Kiik

Por razões profissionais passo a vida a dizer “ita boot”, ou “tu, o(a) grande”. É uma forma de respeito, de tratamento formal a que me habituei com facilidade, primeiramente por achar graça, depois por, à falta de mais opções, perceber que era a melhor forma de mostrar o meu respeito.

 

Menos comum é dizer-se “ita kiik”, “tu, o(a) pequeno(a)”. A tendência é elevar-se as pessoas, não diminui-las. Mas a minha mana kiik é-o por analogia à mana boot, uma forma de dizer que ela é uma pequena-grande menina. Linda, sorridente, olhos vivos.

 

Não terá mais do que 6 anos e trabalha no mercado. Sempre que lá vou procuro pela pequena Clara - "onde está a mana kiik? estou aqui mana boot" - falamos um pouco enquanto ela põe os legumes em sacos como se de ovos se tratasse. A minha mana kiik, natural de Baucau, não vai à escola. Ainda não tocámos nesse assunto mas havemos de lá chegar. Imagino que não tenha documentos de identificação, é que sem eles não pode inscrever-se na escola.

 

Depois há os sapatos, o uniforme, os livros, o material escolar, caros e por isso inexistentes. Há mas não tem, dizem os timorenses constantemente, agora percebo o seu sentido.

Reporter Timor às 03:33 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos