Timor Lorosa'e #1

O facto de ser portuguesa levanta com frequência algumas questões. O colonialismo, o português como língua oficial num país da Ásia, a CPLP, o petróleo, o sândalo, o café. Em 500 anos de história em comum haverá muito a apontar aos portugueses mas não exactamente a mim e a tantos portugueses na diáspora, coisa que nem sempre é fácil de explicar.

A História fala-nos de um "Timor Português" (ou "Timor Timur" durante a ocupação Indonésia) e como tal na perspectiva do colonialista, do ocupante, do povo dominante. O Timor dos timorenses, o país real, de ontem e de hoje, tão rico e interessante, foi ofuscado (é um eufemismo, bem sei) até há 10 anos aquando da Restauração da Independência.

A rubrica "Timor Lorosa'e" servirá para partilhar convosco o meu espanto ou fascínio ou, ainda, choque cultural porque também o sinto, perante histórias contadas ou vividas deste lado do mundo.

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Foi o J. que me contou: o primeiro corte de cabelo na vida de um timorense dá direito a festa. Reúne-se toda a família, mata-se o porco, as galinhas e o diabo a sete. A cerimónia, que imagino ter origem no tempo dos reinos (quando os portugueses chegaram a Timor há 500 anos, o país dividia-se em 60 reinos), é um ritual para prevenir a doença e a morte.

O povo acredita que passar por cima da tradição trará má sorte. E é por isso que, ainda hoje, em pleno século XXI, o primeiro corte de cabelo é motivo de celebração.

E agora recordo-me que a minha mãe guardou um caracol do meu cabelo num tempo em que os álbuns de fotografia tinham uma área reservada à primeira tosquia. Ou será que ainda têm?!
Reporter Timor às 07:47 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos