Voluntária depois dos 60

 

O pin, ao peito, a dizer "a minha arte é ser eu" foi a primeira coisa que me chamou à atenção. Nem foi por estar posicionado no lado do coração mas por ser exibido na blusa de uma mulher de cabelos brancos que levava nos pés umas sapatilhas.

 

Íamos a caminho de Ataúro - essa ilha tantas vezes revisitada - viagem durante a qual dormi até me adormecerem as mãos. Mas aquele pin voltou a colar-se-me aos olhos quando começou a nova aventura, já em terra. Foi aí que perguntei "é portuguesa?". 

 

Leondina, portuguesa sim, de trás-os-montes, completou 61 anos há um mês em Timor-Leste. Foi professora de português, reformou-se, mudou-se para as Caldas da Raínha para acompanhar as filhas e os netos. Mas o espírito desassossegou-se-lhe, impacientou-se-lhe.

 

"Se calhar já não vou a Moçambique".

Quis trocar o título de reformada pelo de voluntária que, diga-se, lhe assenta bem melhor. Sonhou começar por Moçambique,  mais perto de casa, mas a oportunidade estava em Timor-Leste. Pediu um ano - ou terão sido dois? ah isto de ser repórter em lazer é uma chatice - para pensar, para se preparar mentalmente para a distância, as saudades, e esperar pelo tempo de os netos irem para a creche. Depois impôs as condições: vou para um máximo e um mínimo de três meses. Partiu. E chegou.

 

Disse-me "nos primeiros tempos não conseguia sair de casa" e revi-me nesse estado assoberbado em que tudo nos parece afectar, que nos pesa porque é impossível ser-se ou estar-se indiferente. Trabalhar com jovens, ensinar-lhes uma língua estrangeira e estranhar - tudo, todos - para depois sentir saudades antes mesmo de partir. Diz que se emociona diariamente, que já não vai à internet para falar com a família e é nestas últimas semanas que está a correr o país movida por uma paixão que não sossega.

 

Quis resolver as saudades com a família, as do futuro, explicou. Porque um dia há-de morrer e irão sentir-lhe a falta "mais vale irem-se habituando" enquanto se ausenta por curtos períodos. Um pensamento, para mim, difícil de compreender mas que respeitei e respeito apesar de me ter saído um "oh! não pode pensar assim!".

 

Um voluntário é, por definição, uma pessoa que vem para servir o outro, embuído num espírito altruísta. Mas o que vejo nestes voluntários, aquilo de que falam, com espanto, é do saldo positivo, dos ganhos inesperados, desse sentimento que diz "não era bem disto que eu estava à espera, agora fica-se-me aqui o coração e eu que queria tanto ir ter com a família preferia, ao invés, que viesse ela juntar-se a mim".

 

Diz a Leondina que volta a Timor, "oh se volto!", a questão não deixa dúvidas.

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