Os retornados

Não me lembro de viver o drama dos retornados, os milhares de portugueses que nos anos 70 e 80 regressaram a Portugal depois do 25 de Abril, mas cresci a ouvir histórias de família. Os meus irmãos, pais, avós e bisavós viveram em Angola. Nasceram lá duas gerações, e sempre vi a história da minha família, em si mesma, como um legado.

 

Da vergonha e humilhação por que passaram os retornados chegou-me muito pouco. Grande parte da minha infância foi alimentada com histórias de aventuras e amizades profundas e verdadeiras, com os álbuns de fotografia antigos no colo e a voz da minha mãe, tão real, a falar dos seus laços com uma terra que ainda não conheci.

 

Sobre a guerra ouvi as histórias de um Portugal que abandonou os seus cidadãos e a vontade de todos em ficar na terra quente. As paixões que ficaram por viver, as famílias que perderam o rasto aos seus. E o locutor de rádio, gordíssimo - foi tão ao engano quem imaginou a figura daquela voz potentissíma - graças a quem a minha família se reencontrou após semanas, na estrada, a fugir às guerrilhas e à morte.

 

Da vergonha e humilhação por que passaram os retornados chegou-me muito pouco, de facto. Lembro-me de ouvir lá em casa que o meu pai foi obrigado a cortar o cabelo e a barba para conseguir trabalho – conselho de um amigo – e da arrogância ou desprezo, ou as duas coisas, dos vizinhos.

 

Mas a história que prevalece, para mim, é aquela que começa na primeira noite debaixo de céu angolano, num país profundo, virgem. O meu avô era guarda-florestal. Recém-casados, ele e a minha avó passaram as primeiras noites, ou semanas, numa tenda no meio do mato. As populações rodearam-nos e deram indicações (talvez em kimbundo ou umbundo, dialectos locais) para que os acompanhassem. Sob aquilo que parecia uma ameaça, lá cumpriram, e quando chegaram ao destino, um quilómetro adiante, tinham uma refeição à sua espera.

 

Sim, os meus avós apaixonaram-se por Angola. Viveram ali os melhores anos das suas vidas. Mais: viveram gratos pela oportunidade de viver num país tão extraordinário. Como muitos, regressaram a Portugal contrariados, porque tinha que ser, porque queriam pôr a sua família em segurança. E não mereciam passar pelas humilhações que os esperavam em Portugal.

 

“Depois do Adeus”, a nova série da RTP, faz um retrato do que se passou. Um retrato fiel que apazigua o coração de tanta gente que deixou a “sua” terra para regressar à “pátria” de Mário Soares (ficou célebre um discurso seu em que dizia que os portugueses das colónias estavam por sua conta, entregues à sua sorte). Gente como a senhora A. que conheci noutro dia aqui mesmo, em Timor, e que me contou emocionada que ainda tentou regressar a uma Angola que já não era a sua.

 

Uma senhora com cerca de 60 anos que em Portugal se recusou a ver a série mas que durante uma escala em Singapura, através da RTP Internacional, fez as pazes com o passado.

 

Grande RTP!

 

E não consigo deixar de pensar como será o regresso da minha geração, desta geração emigrante, um dia, a Portugal. Seremos recebidos de braços abertos ou de punho fechado? Irão acusar-nos de ter abandonado o nosso país? Ou irão lembrar-se que nós é que fomos abandonados, aconselhados a partir?

 

E há um ano, a 13 de Março, disse adeus a Portugal.

Reporter Timor às 05:46 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos