Sobre a morte

Vivo num país onde se morre todos os dias, vezes demais para um emigrante não se dar conta. Estradas cortadas que dão passagem a largos cortejos, choros que nos acordam certa noite e que continuam durante um mês, na casa ao lado, em cujo quintal por vezes se celebra o enterro.

 

Enterro que não acontece até que os familiares estejam todos presentes mesmo que isso implique esperar meses pelos que moram do outro lado do mundo. Depois vêm os rituais para "despertar o morto", a recolha da família um mês depois e a festa, a grande festa do desluto, passado um ano, em que os familiares trocam o preto por cores intensas.

 

Há um mês morreu um jovem português, da minha idade, em Díli. Acidente. O hospital nacional não tem câmaras frigoríficas e aqui não há caixões blindados, requisito fundamental para se enviar um corpo por avião. O que significa que a família, em Portugal, esperou 15 dias até que fosse possível levar aquele filho, irmão, neto de volta a casa.

 

Na semana passada a morte de outro emigrante. O enterro teve lugar num cemitério em Díli, na presença de alguns amigos.

 

Não conheci pessoalmente nenhuma destas pessoas. Mas estas mortes, mais do que as suas circunstâncias, fazem-me pensar no quão mais difícil ainda se poderá tornar a perda de alguém que se ama. E a frase que ficará para sempre - foi morrer tão longe da família.

Reporter Timor às 06:43 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos