Obrigada, TC!

 

Durante os 5 anos que trabalhei na RTP2 foram várias as reportagens que fiz sobre museus e cultura em geral.

Destaque para "Uma Aventura no Museu", uma reportagem com Ana Maria Magalhães. A escritora aceitou o meu desafio e fez par com uma criança de 5 anos num passeio pela oferta cultural em Lisboa. era um dia de chuva e gravámos a manhã inteira. primeiro no Museu Nacional de Arte Antiga, depois no Museu de Arqueologia e ainda na Fundação Calouste Gulbenkian. foi, dentro do género, a peça que mais me orgulhei de por no ar. pelo serviço público que prestámos todos naquele dia, pelo trabalho que deu a toda a equipa, em especial ao J. e à M., pelo resultado incrível! 

 

Mas o meu contributo para com um projecto cultural, pensava eu, não passaria disto mesmo: divulgá-lo. Foi, por isso, com espanto, que aceitei o desafio da T. para trabalhar no Arquivo & Museu da Resistência Timorense. um projecto apaixonante...desde o primeiro minuto.

 

Transcrevo abaixo um texto com data de 28 de Março. um relato entusiasta de quem, naquela altura, sequer imaginava vir a apaixonar-se por Timor e pela sua história.

 

Obrigada T., por teres acreditado em mim num tempo em que não eu era mais do que uma estranha. e por teres mudado a minha vida de uma forma que (ainda) nenhuma de nós sabe o quanto.

 

 

***

 

Museu & Arquivo da Resistência Timorense, Díli

 

Esta manhã cheguei ao Hotel Timor decidida a terminar a minha carta de apresentação. já passaram duas semanas e tudo o que quero é regressar ao trabalho, continuo por isso a bater de porta em porta, deterinada a ficar por cá.

Encontrei a T., que estava a tomar pequeno-almoço, e me perguntou se não queria passar pelo museu - "há tanto para fazer, se não estiveres ocupada...". E foi de sorriso nos lábios que aceitei o convite.

 

O museu é um edifício dos anos 60, construído por um arquitecto português para ser o Arquivo Nacional.

Os portugueses decidiram depois usá-lo como tribunal e o mesmo aconteceu durante a ocupação indonésia. Em 99 resistiu a um incêndio que destruiu parte da cidade. Há 7 anos decidiram transformá-lo num museu que será o primeiro do país e o único do género em países em desenvolvimento. Mas Timor não quer ser um exemplo quer sim, e com imensa garra, contar a sua história e mostrar às novas gerações que "não há países livres sem memória".

 

O Governo timorense é, por isso, o principal financiador deste projecto.

A inauguração está agendada para 18 de maio mas as obras estão longe terminar.

 

Num país independente há apenas 10 anos, o arquivo histórico sobre o período da resistência é bastante rico. Fotografias, cartas, documentos vários e objectos foram guardados durante anos por guerrilheiros e populações.

Uma das histórias mais incríveis que a T me contou foi quando a sobrevivência da guerrilha estava em causa, por falta de homens e alimento. Decidiram depois ir para as montanhas, pedir ao povo que pegasse em armas e que pousasse para uma máquina fotográfica. Enviaram depois, em massa, as fotos para todo mundo com a mensagem: "somos muitos mais do que vocês pensam". uma guerrilha estratega, organizada e com o apoio do povo.

 

Ao todo o museu terá 21 colaboradores, todos timorenses, sendo que há lugar para investigadores que darão continuidade ao estudo da história do país. Eu não sabia que em Timor não havia a disciplina de história. Depois de séculos de estórias com a visão do colonialista português e depois do invasor indonésio, Timor escreve agora a sua própria história.

 

Uma hora e muitos dedos de conversa depois, a T. fez-me uma proposta irrecusável: "queres ser consultora de comunicação do museu?".

 

E ao dia 28 de Março tudo se começa a compor por terras do levante.

 

 

*Nota: Timor significa "levante".

 

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