O Acidente

Sempre me disseram que a pior coisa que pode acontecer a um estrangeiro em Timor é ter um acidente com um cidadão nacional. A experiência de uma amiga, cujo carro foi apedrejado após uma travagem brusca para evitar (com sucesso) atropelar um miúdo distraído, comprova a teoria. Tanto assim que cheguei a ouvir que as indicações da empresa x eram "se tiverem um acidente só param no aeroporto ou numa esquadra da polícia".

 

Nada disto aconteceu quando, há dois dias, uma mota se espetou contra a porta do meu carro. As raparigas caíram, eu saí como uma louca para saber como estavam. Doridas. Não queriam grandes conversas comigo nem a água que eu oferecia. Uma chorava. Eu chorava também. A multidão acumulou-se. Pensei, em todos os segundos antes da polícia se acercar, que ia levar uma tareia. Infelizmente é esta a realidade por aqui mesmo que, tal como foi o caso, a culpa não tenha sido minha.

 

A minha inocência foi testemunhada por um cidadão Timorense que volta e meia dizia "foi a mota que bateu no carro e não o contrário!". Depois olhava para mim e fazia sinal para eu sossegar. Diz que seguia atrás de mim e viu tudo.

 

A minha abençoada destreza em tétum permitiu o seguinte - e incrível - diálogo:

 

Polícia: O que é que aconteceu?

Eu: Eu seguia em sentido único em direcção ao Palácio do Governo e esta mota bateu no meu carro quando ia mudar de direcção, à esquerda.

Polícia: E o que é que quer fazer?

Eu: Não quero nada, a rapariga tem que ser levada para o hospital.

 

(a multidão concordava comigo)

 

Polícia (para a condutora da mota): Você tem que ir para o hospital.

Rapariga (levantando-se e sacudindo as calças): Eu estou bem, isto já passou (pareceu-me que sorria).

Polícia (para mim): A senhora pode ajudar a pagar os cuidados de saúde?

Eu: Posso, claro.

Polícia (disse qualquer coisa à rapariga que eu não entendi e virou-se para mim): Vamos ver o seu carro.

 

(fomos, dois polícias e eu)

 

Polícia: Então pode ir embora.

Eu: Como?

Polícia: A rapariga foi para o hospital (olhei e, efectivamente, já tinha desaparecido) e a senhora pode ir.

Eu: Mas não toma nota da situação? Não fica com os meus dados? Como é que ajudo a rapariga?

Polícia: Não se preocupe com isso, bom trabalho e bom dia (os dois polícias sorriam-me, tranquilos).

 

Julgo que só parei de tremer lá para o meio-dia. 

 

Reporter Timor às 02:32 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos