Até sempre Timor-Leste!

Tinha 25 anos e uma vontade imensa de mudar de vida. Mas o que me esperava em Timor-Leste, onde cheguei em 2012, sem trabalho ou ambição, revelou-se uma oportunidade para ver a vida sem filtros e ainda assim, e sobretudo, para ser imensamente feliz.

 

Timor-Leste foi um murro no estômago em vários sentidos.

 

Habituada ao ritmo lancinante do jornalismo televisivo, onde ser competente é trabalhar muito, no escritório, em casa, à noite, pela madrugada e ao fim-de-semana, tive que reaprender uma série de coisas como a solidariedade e o trabalho de equipa. Timor-Leste repôs no meu espírito valores que o meu país perdeu há muito: que é preciso dar oportunidades aos jovens e respeitar profundamente os mais velhos; que é possível viver sem o receio constante de perder o emprego e a casa e a estabilidade; e, finalmente, que a liderança, a verdadeira liderança, nasce do respeito mútuo.

 

Em três anos compreendi que trabalhar em desenvolvimento é ter capacidade, e abertura, para aprender coisas novas todos os dias, reinventando-nos se necessário. Aprender a língua local, para falar ao coração das pessoas, aprender a história e cultura do país, factor essencial para trabalhar e viver na condição de estrangeiro, e aprender a ter noção de que estamos de passagem num país que estando em desenvolvimento é, também, uma nação pós-conflito e por isso com tensões sociais e feridas por sarar.

 

Aprendi, acima de tudo, que é preciso ter tempo e dar tempo aos outros e a nós próprios. Tempo para viver, para ver o nascer e o pôr-do-sol, para falar com estranhos e ler livros, para subir montanhas e mergulhar em alto mar, para contar histórias e, acima de tudo, vivê-las.

 

Durante um ano, o primeiro, andei a pé e de tákxi mas sobretudo a pé. De vestidos coloridos e chinelos atravessei as ruas de Díli como quem atravessa os corredores de uma casa.

 

- Ba ne’ebe (onde vais?)

- Malae’e! Diak ka lae? (estrangeira, como estás?)

- Mister, mister!

- Mijis, good after!

 

Nesta casa, metade de ilha, gente inteira, voltei a ser a Tati, como em criança. E fui irmã e prima e natural de Los Palos. Fui, portanto, família e ganhei outras famílias, de todas as cores, de todo o mundo. Neste contexto local e internacional ganhei mundo e venci-me. Queria fazer mergulho, aprendi a nadar. Não podia reciclar, comprei roupa na rua, em segunda mão, feliz e contente. Não tinha televisão e li, li muito. Tive saudades de casa e aprendi a cozinhar a sério. Fui tão feliz sozinha que percebi o que é amar a outro, verdadeiramente.

 

Dizer que Timor e os timorenses me desarmaram completamente, a tal ponto que tenho a sensação de ter sido reinventada. Para melhor, quero acreditar. Com os pés mais na terra, com mais substância, mais pessoa, mais gente, mais angolana e menos portuguesa, mais eu.

 

Este é, como já deu para perceber, o último post do Reporter Timor. Um blogue criado para partilhar a minha experiência em Timor-Leste, a 16 mil km de casa e, ainda assim, e por estranho que pareça, em casa. Uma página que se encerra hoje porque chegou o tempo de partir para novos desafios. E porque só de coração cheio, profundamente agradecida e com um sentimento de amizade por este povo, valerá a pena começar do zero outra vez.

 

Este blogue foi a reportagem (possível) do mundo à minha volta. A minha volta ao mundo (re)começa agora.

 

Obrigada barak Timor-Leste! E até sempre!

 

Fim.

 

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