Na ilha de Rote

Éramos quatro na outra metade de ilha. Portugueses, todos. Quis o acaso que nos juntássemos ali, do lado da fronteira que já não é Timor, e que ainda é paraíso, para descobrir o quanto havia de comum nas nossas histórias. Como se para tal não bastasse estar aqui, neste canto do mundo.

 

Éramos quatro, dizia eu, e a história é só uma. Contámo-la a um australiano, durante a viagem de biscota (diz o word que não reconhece a palavra, mas imaginem um nano-micro-autocarro, transporte-rei na Ásia), a caminho do porto onde um barco nos esperava. Mentira que foi ele que se fez esperar

 

Íamos então os cinco a conversar num estrangeiro tão familiar contando as razões das nossas fugas. O australiano por ser de onde é, onde o dinheiro abunda e a hipocrisia é tanta, nós por sermos de onde dinheiro não há e onde(assim se vê a injustiça que há neste mundo) hipocrisia há de sobra. De maneira que o australiano, surfista, backpacker, mochileiro de larga viagem, diz que trabalha dois meses como artista de rua em Melbourne e se dedica às ondas no resto do ano. Não percebi qual o argumento que vence, se a aversão aos australianos se o encanto pela Ásia. O certo é que o homem não vai para novo, já leva dezasseis anos disto, e diz que isto é que é viver.

 

Eis a história. Jovens, licenciados, empregados na profissão certa. Tudo tão encaminhado e o país às avessas. Futuro que não pode ser este. Tarde ou cedo os ventos mudam e se há quem cuide que eles não soprem desfavoráveis, também os há quem decida não esperar. Nós.

 

E assim se fizeram as malas, se deram abraços apertados e se apanhou o avião, como nos sonhos, seguros de que o desconhecido só podia ser melhor. E é mesmo.

 

Tanto assim que fomos ao paraíso, sem sair dele, contar a história desta geração de portugueses pelo mundo. Depois atravessámos os mares, como é tradição na terra dos descobrimentos, e lá fomos de ilha em ilha. Éramos quatro e somos tantos.

Reporter Timor às 02:51 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos