Conversas na montanha

Foi em Timor que me ficou clara a ideia de que isto de ser jornalista era mais do que uma profissão. é verdade que sempre gostei muito mais de ouvir do que falar (muito embora este aspecto nem sempre fique muito claro) mas foi neste terreno fértil que encontrei as histórias (ou pessoas?) mais fascinantes

 

E tem sido assim desde há um ano, não será todos os dias que uma pessoa trabalha e não tem tempo para dar assim de barato mas, seguramente, todas as semanas. Foi na sexta-feira que conheci uma daquelas pessoas que, no dizer de José Saramago, “fala connosco como se nos quisesse meter no coração”.

 

(a ver se não me esqueço de dizer ao P. - que sempre viveu muito mais do que leu - e fez ele senão bem! - que ler muito nos faz andar a olhar para as coisas com as ideias dos outros)

 

A pessoa de que vos falo é uma jovem, e vibrante, indiana. Porquê vibrante? Fez-me levantar às 6h da manhã dois dias seguidos, Sábado e Domingo para ser mais precisa, para uma caminhada de duas horas pela montanha. E foi lá em cima, já com as montanhas e o mar expostos à luz do dia, exactamente como nas pinturas a óleo, que a ouvi.

 

Sem querer entrar em pormenores que as conversas privadas são isso mesmo, privadas, deixo-vos algumas - e foram tantas – das coisas que a G. me ensinou:

 

1. As mulheres indianas antes de serem alguém são mulheres de alguém. Tanto assim que para dizer “marido”, elas têm, na verdade, que dizer “deus-marido”.

 

2. Na Índia é a família da mulher que paga o dote pelo casamento arranjado. Isto porque se considera uma bênção que alguém queira casar com aquela mulher – bonita ou feia, gorda ou magra – a quem nem a própria família quis pôr na escola por considerar inútil o investimento.

 

3. Nos anos 90 a India aprovou uma lei para proteger as mulheres indianas de violência doméstica e extorsão de dinheiro, uma vez que era costume as famílias dos maridos exigirem o pagamento de várias parcelas anexas ao dote ao logo da vida.

 

4. Segundo essa mesma lei, não é preciso provas para prender o marido ou a família deste. A acusação dispensa provas e os acusados, neste caso vítimas da própria lei, são presos. Isto garante, a essas mulheres, uma pensão de alimentos milionária para o resto da vida.

 

5. A máfia russa tem uma presença forte no Sul da Índia.

 

6. A Índia está neste momento a discutir uma lei que defina uma idade máxima para exercer as funções deputado ou líder político. Neste momento, a política na Índia é dominada por homens – e também há mulheres - com mais de 80 anos.

 

7. Apesar de historicamente a colonização da Índia pelos Britânicos, no século XVIII, estar associada à evolução do país, é uma enorme vergonha para os indianos que 4 mil ingleses tenham subjugado um país com 400 milhões de habitantes.

 

8. As crianças são educadas para mostrar um enorme respeito pelos mais velhos. Uma das formas mais comuns de o demonstrar é tocar nos pés dessas pessoas.

 

9. Durante o processo de colonização, os indianos eram instruídos para não se misturarem com os ingleses com o argumento de que eram portadores de doenças e desgraças. E esta é uma das razões, mas não a única, da praticamente inexistente mistura racial.

 

10. Ainda hoje na Índia se diz, a quem venha com manias de grandeza, “are you playing like a british?”.

 

E já é a segunda vez que, ao subir uma montanha, ganho um amigo.

 

Não fosse doer-me tudo e dedicava-me a isto.

Reporter Timor às 02:38 | link do post | comentar | Adicionar aos favoritos